[Resenha/Livro] A guerra dos tronos

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Título Original: A Game of Thrones

Autor: George R. R. Martin

Ano de lançamento: 1996 (EUA)/2010 (Brasil)

Editora no Brasil: LeYa

Número de páginas: 592

Relutei muito para começar a assistir a série Game of Thrones, da HBO. Não vi durante o lançamento e dizia: “pra que vou ver outra série idiota medieval que provavelmente tem os mesmos clichês de sempre de dragão atacando tudo, um feiticeiro maluco fazendo magia e etc?” Eu já estou bem saturado de medievalismo, mesmo que 100% ficcional. Quando era adolescente, esse tipo de coisa me atraía mais (bem como coisas relacionadas a RPG, que geralmente são carregados de medievalismo), mas depois passei a ter total aversão, de tanto ver coisas clichês sobre isso, salvar a princesa no castelo depois de derrotar o dragão, orcs, goblins e etc… eu esperava ver em Game of Thrones um Senhor dos Anéis 2.

Até que falei “deixe-me assistir a essa coisa e tirar minhas conclusões sem preconceito”. Ok, se eu não tivesse gostado, com certeza eu teria falado mal mais do que o necessário e justo, pois o preconceito falaria mais alto. Decidi ver nas férias de 2011, a primeira temporada já tinha acabado e baixei de vez os dez primeiros episódios. E vi em coisa de 3 dias, junto com a minha mãe (para a minha total vergonha).  E daí surgiu uma paixão.

Bem, o objetivo aqui é falar dos livros e não do seriado. Depois de ver a primeira temporada, decidi comprar o primeiro livro. Acabou que achei uma promoção excelente na Bookdepository dos quatro primeiros livros por uma mixaria, em um box muito bonito. Edições de bolso. Como livros não podem ser taxados em hipótese alguma, comprei sem pestanejar. E aí dali a alguns dias os Correios entraram em greve. E esse pacote jamais chegou. Ainda tenho esperanças de que um dia terei 84 anos de idade e baterão na porta de casa me entregando o box. Com sorte a Bookdepository me devolveu o dinheiro sem enrolação alguma.

E aí chegou uma promoção do Submarino (ou Saraiva, sei lá) dos três primeiros livros da saga em um box (mixuruca) de colecionador. Comprei e esse sim chegou, sem problema algum. E então comecei a mergulhar em Westeros, mesmo já sabendo absolutamente tudo do primeiro livro, de tão fiel que é a primeira temporada da série.

George R. R. Martin sabe escrever. Isso não se pode negar em hipótese alguma. Roteirista e autor de várias novelas e romances, o senhor americano de 64 anos criou uma história profunda, intrincada, cheia de personagens interessantes e com reviravoltas de tirar o fôlego.

A escrita de Martin é muito boa. Sem enrolação demais, sem descrições em excesso e com um pé muito firme no realismo, A Guerra dos Tronos se torna facilmente um dos melhores livros de ficção que já li na vida, e foi logo no primeiro livro que eu  percebi que eu estava preso para sempre dentro do mundo intriguento criado por Martin.

Emblemas de algumas das principais famílias de Westeros.

Emblemas de algumas das principais famílias de Westeros.

Verdade seja dita: a comparação com O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, é injusta, mas não há quem não a faça. Tolkien é o pai da ficção fantástica moderna e é o ícone máximo da criação de sagas épicas. Acho que jamais veremos um mundo tão vivo e pulsante quanto a sua Terra Média, e é fato que esse universo da saga do Um Anel é muito mais fantasioso, criativo e livre.

Westeros é bem diferente. Não temos orcs, trolls ou ents. O que temos é um mundo extremamente calcado no real no primeiro livro da série (já li os cinco, mas estou resenhando o primeiro somente agora, o que é uma tarefa árdua, pois nem tudo está tão fresco na memória), e isso me agrada muito (é só ver o que eu comentei lá em cima do clichê). Eu esperava uma coisa, e recebi outra completamente melhor, e isso é prazeroso. Ser surpreendido positivamente é ótimo, e A Guerra dos Tronos fez isso comigo.

Martin compõe seu elenco de personagens de forma rara perto de outros livros: com extrema profundidade. Não há personagem bonzinho ou mau. Em A Guerra dos Tronos, vemos que só existem interesses, e isso vai nortear as ações de praticamente todos os personagens. Por isso, não temos ninguém bobo ou ingênuo participando (a não ser as crianças, mas bem, essas são crianças, se elas fossem descritas como verdadeiros adultos, seria muito estranho), e se há algum personagem assim, pode ter certeza que ou ele vai mudar e ficar mais esperto ou vai se ferrar grandemente.

Já no primeiro livro de As crôncias de gelo e fogo, percebemos que Martin não é um escritor comum, que mantém seus personagens principais vivos só para ficar em uma zona de conforto. Pelo contrário, o autor parece brincar com os sentimentos do leitor ao colocar personagens chave em posições extremamente terríveis e até mesmo chegando ao destino de toda a vida: a morte. Por isso, pode ser extremamente desagradável ler A Guerra dos Tronos e ver um personagem muito querido vir a óbito.

O Trono de Ferro, objeto de todas as intrigas do reino. Quem senta nele, controla todo o continente.

O Trono de Ferro (como mostrado na série da HBO), objeto de todas as intrigas do reino. Quem senta nele, controla todo o continente.

E isso é bastante raro, é como se Martin se desafiasse a continuar uma história sem um personagem chave. Sinceramente, nunca vi nada igual. Já vi em diversos livros o mocinho chegar a uma situação em que a morte sopra ao seu ouvido, mas que ele consegue milagrosamente escapar das garras dela. Isso é o comum e esperado. O contrário, não.

E essa é uma grande lição que podemos tirar do livro: ninguém está a salvo, coisas horríveis podem (e vão) acontecer. Não se apegar aos personagens seria o ideal em uma situação como essa, mas isso é algo impossível. Os profundos e diferentes personagens da saga vão gerar ódio e amor ao mesmo tempo, muitas vezes fazendo ações que detestamos, mas lá na frente podem vir a se redimir e então podemos voltar a gostar deles, ou descobrir que já gostávamos desde o início.

Essa evolução de personagens é latente durante toda a série, e já no primeiro livro isso se mostra, pois mesmo sendo introdutório, temos muitos problemas a serem resolvidos já nele, e essa dualidade dos personagens já estará presente desde o início. Absolutamente todos eles são cinza, como escrevi acima. E isso leva uma saga medieval a outro nível.

Uma excelente escolha para essa aproximação com os personagens é a forma que Martin escolheu narrar a história: por pontos de vista. Ou seja, não temos capítulos em si, mas cada personagem tem partes no livro que são inteiramente vistas sob seus olhos, e narradas em terceira pessoa. É uma excelente forma de se criar esse vínculo entre todos os personagens principais e o leitor, visto que assim conseguimos ver de perto os pensamentos e sentimentos deles.

Tudo bem que nem tudo é real no livro, pois temos um núcleo onde há a ameaça iminente de seres mitológicos chamados “Outros”, com poderes além dos humanos, que querem mais é dizimar toda a humanidade. São como mortos-vivo, mas renascidos no inverno extremo para o outro lado da Muralha, uma gigantesca estrutura que separa o reino de Westeros com os povos ditos selvagens, que vivem para-lá-da-Muralha.

Mas isso nem é lá tão o foco no primeiro livro. O foco mesmo é nas intrigas e jogos políticos protagonizados pela maioria dos personagens, entre Winterfell (o reino do norte, onde a maior parte dos protagonistas do livro, os membros da família Stark, vivem) e Porto Real (a “capital” do reino, onde a maior parte das intrigas ocorrem). E é isso que é apaixonante no livro: esse foco maior em contar uma história política, e não essencialmente fantástica. Há muitos mitos, lendas e mitologia, mas isso se torna até mesmo irrelevante perto do peso enorme que a política e conflitos de interesses de Westeros têm.

A Guerra dos Tronos é um livro profundo, pesado e divertido. É aquele livro que vai te fazer querer ler o mais rápido possível A Fúria dos Reis, quando terminá-lo. É um livro para adultos também, essa fachada de ficção fantástica medieval cai por terra quando se começa a ler, com mortes, ação e também um certo grau de erotismo (muito menor do que na série, que soa até apelativa nesse ponto).

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Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

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About Neto

Formado em História em 2011 pela UNESP Franca.

Posted on January 6, 2013, in Resenhas and tagged , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 1 Comment.

  1. juliano cesar de oliveira

    Oi adorei.. muito obrigado, me fez se interessar pelo livro….mas vc já leu o livro reverso escrito pelo autor Darlei… se trata de um livro arrebatador…ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos…..e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história…..acesse o link da livraria cultura e digite reverso…a capa do livro é linda ela traz o universo de fundo..abraços. http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?

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