[Resenha/Filme] A Pele que Habito

220673

Nome original: La piel que habito

Ano: 2011

Diretor: Pedro Almodóvar

Tempo de filme: 120 min.

Como falar de um filme tão diferente do normal? Um filme que começa tão inocente e até mesmo bobo e logo se torna uma experiência surreal, carregada e densa?

A Pele que Habito, do diretor Pedro Almodóvar, foge totalmente do padrão de filmes que estou acostumado a assistir. Mais uma vez foi recomendação da minha namorada. Eu esperava um drama, algo um pouco pesado, mas não tão pesado. Algo para refletir, mas não algo para amargar.

O filme tem uma premissa até simples: um cirurgião plástico, Roberto (Antonio Banderas), e sua obsessão em criar uma pele tão perfeita que fosse resistente a tudo, até mesmo a queimaduras. E esse tecido é posto a teste em uma mulher chamada Vera (Elena Anaya – que dá um show de atuação também). Essa obsessão pela pele obviamente leva Roberto a também ser obcecado por seu objeto de teste.

Bom, acho que aí já deu pra perceber um quê de Frankenstein, né? Literalmente, o filme soa bastante como o clássico com uma roupagem moderna, onde o doutor Roberto desafia todas as regras de conduta para poder testar sua pele geneticamente modificada.

De início, fui levado a crer que  filme ficaria girando na jornada de Roberto na criação do tecido de Vera. Mas não, é aí que o filme começa a ter uma reviravolta gigantesca e o filme é uma jornada incessante de sentimentos mistos causados no espectador. Veja bem, não sou acostumado com cinema europeu nem nada, mas pelo que um amigo meu disse, cinema espanhol é quase sempre dessa forma: denso, pesado, carregado.

Se você quer um filme leve, não vá assistir A Pele que Habito. Depois de 1/4 do filme, logo o filme começa a martelar o espectador. Coisas surpreendentes acontecem e aí começa o mistério principal: afinal, quem é Vera? Então, conforme o filme vai se adiantando, somos brindados com o horror da criação do doutor Roberto e vemos que sua obsessão não é necessariamente com a pele perfeita.

O doutor é o perfeito reflexo do médico louco. Atormentado por muitos fantasmas do passado e envolvido por sua pesquisa (também motivada por um desses fantasmas), Banderas encarna um papel muito difícil, ambíguo, sádico, insano. E o papel lhe soa deveras natural e as motivações de seu personagem são extremamente cabíveis. É um personagem bastante humano, extremamente humano, que se deixa levar por suas emoções, sem pensar racionalmente.

Isso nos leva ao ponto onde percebe-se que basicamente todo o núcleo principal do filme sofre de problemas psíquicos. Esse é um dos motivos do filme ser pesado: quando os atores encarnam bem papéis desse calibre e conseguem transpassar sua emoção, a identificação com o espectador é direta. E quanto mais forte essa ligação, mais emoções vai evocar de quem assiste.

Banderas e Anaya

Banderas e Anaya

Mas não pense que vamos sentir raiva de um inimigo ou amor. É outro tipo de sentimento, algo difícil de se definir. É uma “coisa ruim”, eu não sei explicar direito. Percebi no meio do filme que estava respirando mais forte e meu coração estava ligeiramente batendo mais rápido, e isso causava um aperto enorme. Ao final do filme minha cabeça estava pesada e era difícil eu conseguir somar tudo aquilo e colocar no papel (digo, na tela do computador).

Claro que a trilha sonora ajuda, com uma orquestra tocando músicas melancólicas e tensas nos momentos intensos do filme. Na questão de produção de sonoplastia, não podemos nos queixar. A direção de Almodóvar é precisa e cheia de uma paixão incontestável. É como se cada cena, cada diálogo, quisesse tocar a alma do espectador.

A Pele que Habito não é um filme para qualquer um, porque tem um caráter de thriller e é um filme essencialmente forte. E não adianta virar o rosto, porque não há nada visualmente impressionante. É todo o feeling do filme que nos faz sentir mal. Ensina muitos filmes de terror a criar um horror forte e sólido.

O filme acabou já faz quase uma hora, mas ainda estou pensando sobre ele. E provavelmente pensarei para sempre, pois é um filme que  nos desafia a pensar até onde o ser humano é capaz de ir quando a loucura toma conta. Mas a jogada de mestre de A Pele que Habito é simplesmente dar motivos tão plausíveis para essa loucura que somos obrigados a pensar que até mesmo nós podemos ficar loucos, só depende do por quê.

A Pele que habito 5

Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

Advertisements

About Neto

Formado em História em 2011 pela UNESP Franca.

Posted on January 11, 2013, in Resenhas and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. 7 Comments.

  1. Todo filme do Almodóvar tem essa questão: o que é certo e errado. Como te disse agora, ele é um diretor que te faz olhar os personagens com suas escolhas erradas, mas sem julgá-los e isso é muito difícil. Em todo filme dele (que me lembre agora) nós sabemos que o que o personagem faz é MUITO errado, mas ainda assim ficamos do lado dele nos piores momentos.
    É o filme mais triste dele. O mais sombrio que eu já vi, pelo menos. Toda cena pensava: cadê as cores? cadê o humor? Foi uma ótima experiência de qlq forma.

  2. Daniela Gabeloni

    Esse filme é fenomenal. Eu gosto muito de Almodóvar e quando achava que eu não ficaria surpresa com algum filme dele, porque não havia mais como ele fazer filmes tão bons quanto os que ele já havia feito, vem esse filme aí. Eu gosto do Almodóvar porque, para mim, ele fala as verdades mais arrebatadoras sobre as pessoas e a humanidade mas faz isso avacalhando, E o melhor é que ele avacalha de propósito deixando a questão que discute ainda mais latente ao invés de desmoralizada. Apesar de algumas coisas loucas que o filme tem não achei ele pesado não. E confesso que me diverti bastante constatando que tem mais gente (e não é qualquer gente) achando algumas coisas sobre a humanidade que eu já achava mas ninguém acreditava em mim!

  3. Sua resenha me convenceu a ver este filme. Domingo verei.

  4. A trama nos faz refletir de como a obsessão pelo que não conseguiu em relação a esposa se funde na vingança de sua filha a ponto dele não se dar conta. Muito bom.

  5. SEM DÚVIDA UM DOS FILMES MAIS ESPETACULARES QUE EU JÁ VI !!!!! SENSACIONAL !!!! ÚNICO !!!!! PERTURBADOR !!!!

  6. DAS MUITAS POSSIBILIDADES INTERPRETATIVAS DO FILME UMA CHAMA-ME A ATENÇÃO, SERÁ A GENITÁLIA A DEFINIÇÃO DE MACHO E FÊMEA? PORQUE TODA A TRANSFORMAÇÃO FÍSICA NO FILME NÃO MUDOU A PSIQUÊ DA PERSONAGEM VICENTE.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: