[Resenha/Livro] A rainha do castelo de ar

Queen

Título Original: Luftslottet som sprängdes

Autor: Stieg Larsson

Ano de lançamento: 2007 (Suécia)/2009 (Brasil)

Editora no Brasil: Companhia das Letras

Número de páginas: 685

Finalmente cheguei ao final da trilogia Millennium. Finalmente entre aspas, porque devo ter levado no máximo dois meses para finalizar os três livros, que chegam às quase 1800 páginas, somados. E eis que terminei o maior livro da série: A rainha do castelo de ar.

O livro é uma continuação direta do anterior, diferentemente de A menina que brincava com fogo para com Os homens que não amavam as mulheres. Por isso, era de se esperar um início mais rápido e sem enrolações, correto? Sim, porém é aí que as coisas se complicam.

O segundo livro da série claramente é onde há mais ação. Já o terceiro consegue ter menos ainda do que o primeiro. Entendo A rainha do castelo de ar como uma grande investigação. Lenta e enrolada. Veja bem, Larsson conseguiu fazer um livro inteiro investigativo sem muitas cenas violentas, mas a tensão prossegue mais ou menos igual, porque agora Mikael Blomkvist está correndo contra o tempo para salvar Lisbeth Salander do seu maior inimigo de todos os tempos: o próprio Estado sueco.

Como nos livros anteriores, Larsson prossegue com sua veia jornalística pulsante. Acredito que nesse livro isso se tornou muito mais latente e importante: o alvo agora não é tão-somente quem  pratica violência contra a mulher, mas sim contra um Estado permissivo e cheio de manobras ilegais e inconstitucionais para proteger seu bem próprio, travestindo isso de “para o bem da nação”.

Essas atitudes não são incomuns de serem vistas ao longo da nossa própria história, verídica e atual. Abusos de autoridade e o Estado que fecha os olhos quando alguém fraco e oprimido sofre algum dano é o foco principal de Larsson. Eu não esperava menos, pois ao final do segundo livro, estava clara que agora a batalha de Lisbeth e Mikael seria contra a própria Suécia (in)constitucional e corrupta.

Mas aí que vem o diferencial da obra: ao invés de condenar absolutamente tudo e todos, Larsson vai na contracorrente e consegue perceber que uma laranja podre não precisa, necessariamente, contaminar toda a árvore. Por isso, ele usa de figuras representativas do Estado sueco do livro para colaborar em ver também o lado de Lisbeth Salander, que sofreu pelos abusos das autoridades desde que veio ao mundo.

Blomkvist e Salander na adaptação cinematográfica sueca de A rainha do castelo de ar.

Blomkvist e Salander na adaptação cinematográfica sueca de A rainha do castelo de ar.

Com isso, Larsson consegue demonstrar que nem todo mundo que está no topo da cadeia autoritária está ali para proteger planos mirabolantes e prejudiciais ao indivíduo do Estado. Isso o caracteriza como um autor (e jornalista) bastante sensato. Penso que, caso a história fosse transcorrida de forma a condenar absolutamente todo o governo sueco, o autor estaria sendo não somente injusto, mas também deveras infantil.

Mas isso também se deve principalmente ao livro se passar no século XXI, enquanto os acontecimentos fatídicos que levariam a todo o problema em torno de Lisbeth acontecer remontam à Guerra Fria. Todos sabemos que essa época foi marcada pela espionagem e planos sigilosos. É nesse contexto do sigilo que Larsson embaseia suas críticas aos abusos estatais.

Durante todo o livro, somos brindados com palavras e termos como “sigiloso”, “segredo de estado”, “questão de segurança nacional” e outros. Com isso, Larsson consegue causar no leitor um sentimento misto (ao menos em mim): é compreensível haverem questões sigilosas de Estado, principalmente na época da Guerra Fria, mas ao mesmo tempo isso é extramente enojante, principalmente porque, por causa desse tipo de atitude, alguém está sendo prejudicado. No caso é Lisbeth Salander, a personagem principal do segundo e terceiro livros, que aprendemos a amar, mesmo com seu jeito peculiar (e não retardado) de ser.

Com isso me ponho a pensar: quantas pessoas são prejudicadas devido a essas coisas sigilosas ainda hoje? Quantas pessoas não sofrem abuso de estado? Como historiador, sei que há um tempo para essas informações serem liberadas para o povo em geral, que é cinquenta anos. Esse é o diferencial de Larsson: com sua ficção, consegue nos colocar para pensar em questões extremamente atuais e A rainha do castelo de ar funciona bastante como um livro de história também, pois muitos fatos da Suécia são liberados, ao passo que também históricos das instituições mencionadas também são detalhados (talvez com um bom tanto de fantasia, afinal, é uma ficção).

O terceiro livro da série é, por tudo isso, bastante lento, arrastado e até mesmo repetitivo. Por haver muitas provas e detalhes a serem descobertos, seja por Blomkvist, Salander ou qualquer outro membro envolvido na investigação, quando parece que o livro vai começar a engrenar de vez e vermos a luz no fim do túnel, tudo pára novamente pois a investigação fica travada por algum outro problema.

Mas não se engane: A rainha do castelo de ar está longe de ser uma leitura chata e penosa. Essa lentidão consegue nos proporcionar uma reflexão aprofundada do tema. Acredito que foi o livro em que mais pensei sobre, e com mais calma. Diferentemente da raiva para com os homens que violentam mulheres em Os homens que não amavam as mulheres, aqui encontramos um Larsson mais calmo, mas não menos denunciador: os crimes que ele denuncia são graves, em diversos âmbitos, inclusive da incapacidade da polícia de proteger o cidadão.

O foco da denúncia, no final das contas, são as instituições de Estado, onde todas podem ser coercitivas e nocivas, caso não olhem para o indivíduo e repensem seus atos. Como a arrogância costuma imperar nos doutores do alto de suas cadeiras autoritárias, normalmente esse indivíduo é pisoteado. É o caso de Salander, pisoteada desde o início de sua vida.

A importância da imprensa para esse tipo de denúncia é exaltado durante todo o livro também. Larsson era um jornalista, e A rainha no castelo de ar soa como um ode à sua profissão e fica claro que o Blomkvist jornalista é o alter ego do autor nesse ponto: se há algo para denunciar, a imprensa jamais deve se omitir. E Mikael jamais se omitiria, desde que possa provar tudo o que disse. Inclusive correndo risco de vida, a fibra e coragem do jornalista deve prevalecer, sempre buscando divulgar a verdade à população, sobre o que quer que seja.

A rainha no castelo de ar, por mais lento que seja, apresenta questões contundentes e torna a trilogia Millennium certamente obrigatória para qualquer leitor interessado em uma leitura provocativa e de caráter denunciador, além do que o livro possui o melhor final de todos da série, dá uma sensação realmente de “fim”. Um brinde a Stieg Larsson, um dos melhores autores e mais corajosos autores que já tive o prazer de ler.

arainhadocastelodear

Nota final: 4 estrelas (em um total de 5)

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About Neto

Formado em História em 2011 pela UNESP Franca.

Posted on January 17, 2013, in Resenhas and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink. 2 Comments.

  1. Muito boa resenha, Neto. Concordo com praticamente tudo que vc disse. Este livro é mesmo o mais arrastado, mas é uma excelente conclusão à trilogia Millenium, mantendo o caráter denunciador e provocativo, que nos faz pensar em questões como estas. Lisbeth Salander é uma das personagens mais interessantes sobre as quais já tive o prazer de ler e foi ótimo acompanhá-la nesta trilogia.
    Um fim perfeito para uma trilogia fantástica!!!

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