[Resenha/Filme] Django Livre

Django-Livre1

Nome original: Django Unchained

Ano: 2013

Diretor: Quentin Tarantino

Tempo de filme: 165 min

Ontem fui ao cinema assistir a Django Livre, o novo filme de Quentin Tarantino, controverso diretor de filmes cultuadíssimos, como Pulp Fiction, Cães de Aluguel, Kill Bill e Bastardos Inglórios. O filme gira em torno de Django (Jamie Foxx), um negro nos Estados Unidos antes da Guerra Civil, ou seja, ainda na época da escravidão. O filme é um faroeste propriamente dito, com muitos momentos que remetem aos antigos bang bang, especialmente a época dos Spaghetti Western.

E que escravidão. Depois de ver o filme fiquei com a impressão de que a coisa lá era pior do que foi aqui. Sei que as diferenças se bobear nem foram tantas, mas o filme ressalta tanto a questão do negro, e de uma forma tão brutal, que fico com a impressão de que o branco americano dos Estados Unidos à época da escravidão era pior do que o brasileiro em relação aos escravos.

Veja bem, certamente a palavra mais citada no filme é nigger, traduzida como crioulo na versão nacional legendada (e a dublada que vá à puta que pariu). E isso já fala muito sobre o filme por si só. Nigger é uma palavra extremamente depreciativa e usada ainda hoje como insulto lá pelas terras do Tio Sam. E quase não se referem aos escravos de outra forma que não essa durante todo o filme. Todo negro é um crioulo para eles, não existe o menor respeito entre o branco e o negro. O filme consegue ressaltar isso de forma perfeita e o desprezo latente dos brancos para com os negros é perfeitamente visível.

Why is that nigger on a horse?

Why is that nigger on a horse?

Django no filme se torna um caçador de recompensas e por isso anda a cavalo. O desespero e medo das pessoas ao verem um negro a cavalo é avassalador. Ouve-se muitas vezes a fala “Why’s that nigger on a horse?” (“Por que esse crioulo está em cima de um cavalo?”).  Esse medo por parte dos brancos de um negro estar acima deles é mais uma vez bastante evidente a todo o momento. E isso é facilmente percebido pelo personagem de Leonardo DiCaprio, um senhor de escravos fazendeiro, que chega a se questionar por que os  negros não se revoltam, afinal, há muitos mais deles lá (na fazenda) do que brancos.

DiCaprio, porém, encontra a resposta em uma suspeita ciência, que diz que os negros possuem marcas no crânio que os dedicam à servidão. Isso é mais um ponto que me pôs a pensar, pois a escravidão ao passar dos tempos foi se justificando cada vez mais. Prisioneiros de guerra, pessoas de outra raça/cor, pessoas sem Deus no coração… e esse motivo científico pode se juntar facilmente a esse rol de falácias que buscam justificar um ato hediondo de se possuir um ser humano.

Essa subserviência é completamente rejeitada por Django que, após se juntar com o dr. Schultz (Christoph Waltz, o coronel Landa, de Bastardos Inglórios), um alemão em terras americanas, começa a tomar gosto pela desobediência ao branco. E assim começa uma onda de vingança, com muito tiro, sangue, tripas espalhadas, explosões e muito mais.

Waltz e Foxx

Waltz e Foxx

Nisso Tarantino é mestre. Sinceramente, ninguém consegue criar uma violência tão divertida quanto ele. É muito engraçado ver um cara explodir após um tiro. E não é só porque é exagerado, mas sim porque é feito para parecer divertido. Dei risada com cabeças explodindo, devido a toda a situação. E não é também porque é para ser engraçado… eu não consigo encontrar o motivo, mas o conjunto da obra faz essa violência ser extremamente hilariante.

E também o filme tem uma comédia extremamente engraçada. Há inúmeros momentos de doer a barriga de tanto rir, especialmente em um onde um protótipo da Ku Kux Klan é ironizado, mostrando o quão ridículos são aqueles capuzes… ridículos porém perigosos, obviamente.

E as brilhantes atuações de todos os atores envolvidos são excelentes. O filme é muito bem estrelado, com os três principais sendo Jamie Foxx, Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio.

Quanto ao principal, Jamie Foxx, sua atuação é muito boa. Ele atua muito bem como o escravo sem instrução alguma, que desconhece palavras fáceis como “positive“. Sua atitude irritadiça e revoltosa contra os brancos é justificada pelo plano de fundo e muito bem executada por ele. Nas cenas de ação rápidas com tiroteio e até mesmo chicotadas, Foxx atua com enorme naturalidade. Seu personagem não é assim tão difícil e traz muitos clichês de filmes de ação e também dos antigos faroestes, do pistoleiro buscando vingança.

DiCaprio vem como um fazendeiro dono de escravos e francófilo (mas que não fala francês – haha). Um cara ligeiramente pacato e com amor à brutalidade da luta de escravos, o personagem do ator é bastante difícil. Ele mesmo diz que não é tão simples demonstrar desprezo a grandes atores negros por causa do papel. Certamente o monsieur Calvin Candie é um dos personagens mais nojentos e ultrajantes atuados por DiCaprio. Um ser mesquinho, preconceituoso e poderoso. Os melhores momentos são nos de explosão e raiva incontida, pois a melhor expressão deste ator, para mim, é a de raiva. Parece ser muito natural para ele sentir raiva e se ver no controle da situação.

DiCaprio

DiCaprio

O filme, no entanto, é de Christoph Waltz. Em Bastardos Inglórios já vimos uma atuação sem precedentes com um personagem terrível, e em Django Livre ele faz um papel totalmente contrário: o do estranho em uma terra estranha. Seu nojo pelos senhores de escravos é aparente e transpassado para os espectadores com naturalidade, especialmente quando presenciando os abusos de escravos – ao passo em que isso é normal para Django (mas não menos deplorável). O personagem de Waltz é intrigante e se identificar com ele é fácil. Sem ele, o filme não funcionaria de forma tão boa e se tornaria mais mediano sem ele. O dr. Schultz é o elo de ligação de tudo (inclusive do espectador para com a tela), o cérebro do filme de qualquer forma e toda ação tomada por ele é justificável e feita com naturalidade incrível, um personagem bastante calmo e sem papas na língua, que porém interpreta diversos personagens quando necessário.

Com uma participação menor, porém não menos brilhante, temos também Samuel L. Jackson, com seu personagem escravo Stephen, um lambe-botas do monsieur Calvin. É um personagem extremamente mesquinho e que não consegue se colocar no seu lugar e age como se fosse algo mais do que um escravo, como se fosse o braço direito de seu senhor, oferecendo-lhe conselhos e delatando seus iguais. Percebe-se que ele é o mais preconceituoso personagem de todos e isso revela mais ainda sobre o filme, trazendo ainda mais à tona sua questão atual, que trata essencialmente sobre o quão preconceituoso somos para com nossos iguais, somente por gozarmos de um status mais avantajado. Sua atuação é tão boa que é possível até mesmo se pensar se Jackson está mesmo velho daquele jeito e mancando… mas seu sotaque de escravo “mano” é impossível de ser identificado, e traz mais personalidade ainda.

Samuel-L-Jackson

L. Jackson

Tecnicamente impecável, a trilha sonora junta o antigo com o novo, dando o tom certo ao filme. Músicas antigas trazidas diretamente dos vinis originais de Tarantino dão o tom perfeito para Django Livre. Ennio Morricone e Luis Bacalove, duas lendas das trilhas sonoras dos filmes de faroeste marcam presença, enquanto ouvimos em vários momentos hip hop misturados com o ritmo faroeste. Simplesmente impagável, a trilha sonora se mostra marcante desde a primeira cena do filme, com a música tema do filme Django original (cujo ator principal participou também de Django Livre).

Sem título

“Uma nota sobre a condição de gravações mais antigas: Eu estou usando essa trilha sonora – muito dela veio da minha coleção pessoal de vinis. Em vez de as gravadoras me fornecerem novas versões digitalizadas e mais limpas dessas gravações dos anos 60 e 70, eu quis usar os vinis que eu estive ouvindo por anos. Completo com todos os ruídos. Eu até mesmo mantive o som da agulha sendo abaixada no disco. Basicamente porque eu quis que as pessoas tivessem a experiência igual à minha quando eles ouvissem essa trilha sonora pela primeira vez. – Q(uentin)”, imagem tirada do livreto da trilha sonora oficial do filme.

A direção de arte, fotografia e tudo mais do filme também é maravilhosa, mostrando a degradação do negro escravo e a ascensão de Django como um vingador da raça. Ponto especial também para o figurino do filme.

Django Livre é um filme excelente. Tarantino nos trouxe mais uma obra prima, cheia de humor, mas na medida certa, suficiente para nos manter entretidos e nem um pouco entediados. A ação também é bastante equilibrada com os diálogos maravilhosos e reviravoltas de tirar o fôlego. Tarantino é um diretor que faz o que você menos espera quando ele quer e muitas coisas que acontecem no filme podem ser um choque, totalmente imprevisíveis.

Ouça a música tema do filme, Django.

Vão ao cinema e gastem seu dinheiro com Django Livre. Vale a pena. E muito. É até mesmo aconselhável levar o seu avô que adorava ir ao cinema todo fim de semana assistir a um filme de velho oeste, pois muitos clichês da época são encontrados, apesar de ter uma faceta extremamente atual. Quem sabe o gênero não consiga ser revivido depois de Django Livre? Eu espero que sim!

django-livre-original

Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

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About Neto

Formado em História em 2011 pela UNESP Franca.

Posted on January 20, 2013, in Resenhas and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. 5 Comments.

  1. Agora fiquei imaginando aqui: imagina como esse filme foi visto pela população conservadora dos EUA? (tipo, 90% da população haha). Até o uso do termo “nigga” é algo moderno (e só agora, com a crítica sua que fui pensar nisso).
    E foi uma ótima maneira de recuperar o faroeste. Deu uma reinventada estilosa pro gênero (algo que só um diretor insano poderia fazer, já que é um gênero tradicional).
    Ficou muito boa a análise, Neto. Esse filme, pra mim, foi um dos melhores do Tarantino. Tá ali no meu top 3, junto com Pulp Fiction e Death Proof.

    • Então, Mara, eu andei lendo e parece que a gíria nigger era sim muito usada na época da escravidão mesmo, o filme retratou o que era comum. Que nem aqui usarem crioulo direto e tal, que hoje é depreciativo.

      Obrigado por ler, comentar e elogiar 😀

      • Sério mesmo? Nossa, nem sabia que já era algo usado naquela época =O
        Vivendo e aprendendo!!! 😛

      • Sim, era muito usada!! E o povo americano lá ficou chocadinho pq falam nigger 300x no filme… não fez mais nada do que retratar a realidade uasduhasdhuasdshuadsah

  2. eu amei o filme e o resumo o filme eu ja vi na escola com o professor jesse foi muito bom

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