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[Resenha/Livro] Admirável Mundo Novo

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Título Original: Brave New World

Autor: Aldous Huxley

Ano de lançamento: 1932 (Inglaterra)

Editora no Brasil: Globo (edição lida: 2011)

Número de páginas: 309 (contando prefácios)

Continuando minha saga de ler distopias, ao terminar de ler 1984, de George Orwell, logo peguei Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

A obra se passa em uma Londres muitos anos no futuro, mais especificamente em 632 D.F. (Depois de Ford!), o que daria no ano de 2540 no nosso calendário gregoriano. Com essa temporalização baseada no nascimento de Ford, já fica possível de compreender o que Huxley quer com sua distopia: aplicar o modelo econômico fordista a toda uma sociedade.

O fordismo é baseado nos ideais de Henry Ford, especialmente no de produção em massa e consumo igualmente em massa. Huxley pega esses dois ideais e cria uma sociedade onde os seres humanos são produzidos em série e conforme a necessidade e são incentivados ao máximo a consumir ao máximo os produtos oferecidos.

Com isso, não existe  mais o conceito de mãe, pai ou família. “Todos mundo pertence a todos”, como dizem as frases prontas que os habitantes desta Londres vivem proferindo, fruto de seu aprendizado hipnopédico, que se inicia desde o nascimento (de proveta). Com essa hipnopedia, as crianças vão aprendendo conceitos de segregação, consumismo e sexo, tudo na marra, não valorizando a experiência. Com isso, todo ser humano é, basicamente, um produto, que sai de série com todas as características já pré-determinadas, sem qualquer chance de alterar seu destino.

Isso certamente geraria um desconforto na sociedade em geral, mas isso pouco se sente nessa Londres fordista. O ser humano é extremamente condicionado a ser como uma máquina, com características já pré-concebidas e, para as mazelas que possam lhe afligir, surge o escape da realidade: a droga soma. Produzida sinteticamente, leva os habitantes ao delírio e fuga do real, fazendo-o se esquecer completamente dos possíveis problemas. Seu uso é extremamente incentivado por todas as gamas da sociedade. Alguns gramas de soma resolvem tudo.

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Mas mesmo assim há aqueles que não se encaixam na sociedade e procuram, bem, pensar criticamente (um ato visto como extremamente nocivo ao bem-estar social). É o caso de um dos protagonistas do livro, Bernard Marx, membro da casta social mais alta, os Alfas. O personagem não concorda com as fugas da realidade e nem com a forma como as coisas acontecem em Londres (e ao redor do mundo) e procura viver o real e questionar tudo. Isso faz com que ele seja feito de chacota social e também representar um perigo para a sociedade, e recebe ameaças de expulsão do país algumas vezes.

Esse pensamento leva Bernard a ir até um território selvagem, onde as pessoas ainda vivem sem toda a modernidade do fordismo social. Esse lugar é Malpaís, um território onde imperam princípios religiosos. Isso é algo desconhecido por Bernard e por Lenina, a outra protagonista da história. Lá eles vão conhecer John, chamado de “o selvagem” muitas vezes, dada a sua total diferença e alienação perante essa sociedade.

John é a figura que mais contrapõe essa sociedade. Apaixonado por Shakespeare, o personagem não consegue compreender a maioria das coisas que acontecem com a civilização que é condicionada a tudo, e nem esta consegue compreendê-lo. John refuta os ideais de que as emoções devem ser reprimidas, nessa sociedade que subjuga o amor e o conhecimento.

Admirável Mundo Novo é um livro sensacional e certamente mexe com quem o lê. Huxley foi um visionário e conseguiu acertar em várias coisas, seu medo era de que elas acontecessem cedo demais. A sociedade hoje é consumista e não prega o reaproveitamento das coisas. O conceito de “o novo é sempre melhor” é largamente empregado pelos cidadãos de Londres e acho que esse é o ponto central de absolutamente tudo do livro: sem a hipnopedia e o extremo demagogismo aplicado na sociedade, esse condicionamento inexistiria e o excesso de consumismo seria ao menos suavizado.

O livro também acerta no ponto de mostrar uma sociedade com um bem-estar social elevado, querendo ou não. Porém, toda essa sociedade é extremamente artificial, e John consegue compreender isso. Ao suprimir emoções e pensamento crítico, o ser humano não passa de uma máquina que desconhece o próprio status do que é ser humano. Como máquinas, eles são levados a nunca questionar o por quê das coisas e também a não terem nenhuma iniciativa própria a não ser o de transarem uns com os outros.

Outro ponto em que o livro pega é a falta de espiritualidade das pessoas. O conceito de Deus é abolido e é outra coisa que John refuta. Ele não consegue compreender como uma sociedade pode viver sem ter, por exemplo, medo da morte ou compaixão. Mas isso define a vida de todos que vivem nessa Londres: máquinas, que não adoecem e morrem quando o prazo de validade expira. John sofre com a morte de sua mãe e as crianças condicionadas ali não conseguem de forma alguma compreender o por quê desse sofrimento, porque justamente desconhecem o que é sofrer.

Essa sociedade, que parece tão avançada tecnologicamente, é extremamente burra e ignorante. Os livros clássicos foram proibidos e John, tendo vivido toda a sua vida em Malpaís lendo Shakespeare (era o que tinha à mão) recorre a trechos de suas peças para contradizer tudo o que vê. A civilização moderna apresentada desconhece conceitos de aprender e melhorar de vida e a divisão social por castas é garantida pelo soma. Essa sociedade jamais se revoltaria, pois desconhecem até mesmo a possibilidade de serem melhores do que são.

O desenvolvimento tecnológico é uma das maiores preocupações de Huxley, pelo que pode ser entendido no livro. Avanços na genética seriam aliados à tecnologia e a produção em massa de pessoas, de modo a satisfazer a demanda, tirariam a humanidade das pessoas, humanidade esta que está extremamente arraigada no conceito de família. Afinal de contas, o fordismo nada mais é do que a aplicação racional da tecnologia à produção econômica e Ford é Deus para os habitantes (que inclusive não fazem o sinal da cruz, mas sim o T, relacionando-o ao Ford T, modelo que popularizou o automóvel e revolucionou a indústria automotiva).

Aldous Huxley

Aldous Huxley

Assim como em 1984, o coletivismo da sociedade é tão grande que o individualismo é subjugado. Essa perda do individualismo leva à perda da identidade, que passa a basicamente inexistir, visto que com a produção em massa vêm inúmeros gêmeos, em grupos enormes, impossibilitando sua identificação, já que são, via de regra, as mesmas pessoas, determinadas pela casta social à qual pertencem. O sexo liberado e incentivado com todos os indivíduos é outro sinal desse coletivismo, que busca esmagar conceitos inatos ao ser humano, aliado, obviamente ao aprendizado forçado que os condicionam a se tornarem o que têm de se tornar.

Admirável Mundo Novo é um livro praticamente obrigatório a todos. Huxley consegue, com efeito, aplicar excelentes ideias de como ele pensa que o mundo estava seguindo à época e acerta várias vezes. Porém, não consigo considerá-lo uma obra atemporal, como considero 1984. O cenário extremamente tecnológico apresentado pelo autor me fez criar um grande distanciamento, e eu não consegui me sentir tão personagem quanto quando li o clássico de Orwell. Infelizmente é impossível não compará-los, mas acredito que as propostas de ambos eram diferentes: enquanto Orwell quis fazer um ensaio estritamente social, levando conceitos de fascismo a níveis muito preocupantes, Huxley tentou fazer uma ficção científica com aplicações de um conceito econômico que pode, infelizmente, ser aplicado a toda a nossa vida. No fim das contas, ambos são diferentes em sua proposta, mas ambos podem se completar, além de, claro, Huxley escrever sua obra em um momento completamente diferente de Orwell.

Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

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