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[Resenha/Livro] 1984

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Título Original: Nineteen Eighty-Four

Autor: George Orwell

Ano de lançamento: 1949 (Inglaterra)

Editora no Brasil: Companhia das Letras (edição de 2013)

Número de páginas: 414 (contando apêndices e posfácios)

1984 se passa no fictício ano de 1984 (se é que é em 1984 mesmo). O livro foi lançado em 1949 pelo escritor inglês George Orwell, que também escreveu o famoso A Revolução dos Bichos. A história se passa em Londres, que agora não pertence mais à Inglaterra, mas sim a uma enorme nação chamada Oceânia, que é governada por um sistema de governo chamado de Socing.

Em toda a história, vemos Londres pelos olhos de Winston Smith, um membro do partido externo, uma espécie de funcionário público. É através dele que vemos toda a opressão de um sistema político mais totalitário do que jamais se viu.

Imagine se um dia as leis fossem abolidas. Um sonho para os anarquistas, em certas condições. Mas não nas condições de Oceânia, onde as leis realmente inexistem, e você não é proibido de nada, mas ao mesmo tempo qualquer coisa pode te incriminar. Em meio a tudo isso, o que mais pode te incriminar é simplesmente seu pensamento. Absolutamente qualquer sinal de ir contra o Partido (o que é chamado no livro de inortodoxia) pode te levar a simplesmente desaparecer, deixar de ser uma pessoa e virar uma despessoa.

O livro é claramente um estudo político do poder pelo poder, da opressão pela opressão. O Partido é um grande organismo, um pensamento coletivo que não está interessado em riqueza, nem nada. O Partido, como um todo, só se interessa pelo poder. A figura central do partido é o Grande Irmão (em inglês, o famosíssimo Big Brother, e eu acho uma heresia hoje ser um programa de reality show de tão baixa audiência), que é a imagem do pai do carinho e do castigo, ao mesmo tempo.

Ao longo de Londres, imensos cartazes com o rosto bigodudo do Grande Irmão está espalhado, sempre com os termos “O Grande 1984Irmão está vigiando você”. Essa vigia tem ao mesmo tempo uma significância de opressão e também de vigília mesmo, de cuidado. No entanto, como é possível perceber no livro, a figura é somente opressiva. Ir contra o Partido é ir contra o Grande Irmão, e vice-versa. Quem não ama o Grande Irmão deve aprender a amá-lo, acima de tudo, até mais do que os entes familiares. E acredite, o Grande Irmão está sempre vigiando: em todo canto há as chamadas teletelas, que são espécies de televisores com programação única (a de propagandear o Partido) e ao mesmo tempo possui câmera e microfones para captar qualquer sinal de inortodoxia. E não, a teletela nunca desliga; o Grande Irmão está sempre te vigiando.

Essa questão do amor, e também de todo e qualquer sentimento afetivo dos seres humanos para com outros é subjugada e aniquilada pelo Partido. Sentimentos de amor e carinho fraternal são sintomas de inortodoxia e demonstrar muito afeto pode ser encarado como crime. Crianças são estimuladas pelos próprios pais a denunciá-los caso vejam algum sinal de pensamento-crime.

Para controlar melhor a população a sequer pensar nesses crimes, até mesmo uma nova língua está sendo desenvolvida. Seu nome é Novalíngua e será universal por toda a extensão da Oceânia. Como ninguém tem contato com o mundo exterior, é impossível estudar outras línguas. Na Novalíngua, perfeita para o Partido, palavras inortodoxas serão abandonadas e extintas e, em algumas gerações, não será possível que se pense em alguma palavra que desagrade o Partido. Por isso, o trabalho dos linguistas da Oceânia não é inventar novas palavras, mas sim destruir as já existentes, aglutinar termos e etc. Pavoroso.

Veja bem, os crimes nunca chegam a acontecer em 1984. Não há atentados contra o Partido. Ninguém pode atentar contra o Partido, o Grande Irmão jamais se fere, jamais erra. Ao menor sinal de divergência social, de uma palavra que saiu da sua boca sem querer já é motivo para ser levado aos confins do Ministério do Amor (o partido é dividido em quatro Ministérios: o do Amor, responsável pela espionagem e controle da população; o da Pujança, responsável pelo controle da economia; o da Paz, responsável pela guerra; e o da Verdade, responsável pela imprensa e, acima de tudo, na falsificação de documentos e reinvenção da História).

Algo que o livro trabalha muito é nesse contexto de realidade, passado e História. A História da Oceânia está em constante mutação. Nada existe antes do Partido e se algo já existiu, era pior do que os tempos de agora. O Partido cresceu em uma época onde o capitalismo estava em alta. A revolução aconteceu, os capitalistas caíram e agora são apenas uma sombra do passado, definidos como escravistas e opressores do povo. Diz o Partido: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.”

Nisso, o conceito de realidade se desmancha no ar. Existe somente uma realidade e, consequentemente, uma verdade: a do Partido. Por exemplo, há outras duas supernações no livro: a Eurásia e a Lestásia. As três nações sempre estão em guerra ou em aliança, e esse quadro vive sendo invertido. Porém, o Partido prega que a guerra ocorre desde sempre com a atual, e sempre era aliado da outra. Por exemplo, se até ontem a guerra era contra a Lestásia e hoje passa a ser contra a Eurásia, modificam-se todos os documentos para que não haja forma de provar que algum dia a Oceânia esteve em guerra com a Lestásia, mas sim semrpe com a Eurásia.

Isso acontece a todo momento com todo tipo de documento. Quando uma pessoa simplesmente some (ou seja, vai parar no Ministério do Amor), todos os seus registros são apagados e ela passa a nunca ter existido. Falar sobre ela é uma loucura e leva o falante ao mesmo lugar da despessoa. Esse controle da Verdade é essencial para o Partido, que jamais erra. O Partido nunca pode errar, isso colocaria as pessoas em dúvida quanto à soberania do mesmo.

A teletela exibe o rosto do Grande Irmão.

A teletela exibe o rosto do Grande Irmão, na adaptação cinematográfica do livro.

Em certo ponto do livro, os pilares do Partido são inteiramente dissecados. São eles: “Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão”, “Ignorância é Força”. É nessa parte que o estudo político fica mais evidente. Fica bem claro aí que o maior objetivo de Orwell não era fazer um romance passado em uma realidade imaginada, mas sim que esse romance era só a desculpa para ele criar um mundo que ele imaginou e assim poder dissecá-lo ao seu bel prazer. Nisso entra também um dos conceitos mais importantes do livro: o duplipensamento, uma das bases mais importantes para a lavagem cerebral do partido. O duplipensamento consiste em ter duas ideias conflitantes dentro do cérebro e aceitar as duas. É algo difícil de se absorver, e quando esse assunto começa com força no livro, fica uma leitura pesada e extremamente intelectual. Com algum esforço, com o passar do livro, esse termo consegue ser compreendido e assimilado pelo leitor, além de os seus motivos serem perfeitamente coerentes com o totalitarismo que impera na Oceânia. Afinal de contas, as coisas só são como o partido quiser que sejam. Como diz o livro muitas vezes “2 e 2 são 4, mas pode muito bem ser 3 ou 5, caso o Partido queira que seja”.

O fato é que Orwell é um gênio, um visionário. Tem tanta coisa nesse livro que hoje é atual, isso se não for dizer que tudo o que ele diz é atual. O mais aparente é o controle e manipulação da mídia. Ainda não chegamos ao estágio de modificar a História ao ponto do Partido, mas sabemos que os jornais e revistas são facilmente manipuláveis para dar a notícia do agora.

Outro ponto muito importante é o caso das guerras incessantes, onde eu claramente vejo o discurso da Guerra ao Terror dos EUA como muito parecido com a das guerras intermináveis entre Oceânia, Eurásia e Lestásia. Talvez os motivos sejam distintos, mas a tensão que gera é a mesma, o patriotismo exaltado, a xenofobia, o preconceito do diferente, tudo isso é canalizado. No fim das contas, a sociedade criada por Orwell é gerenciada e movida pelo ódio, e hoje não estamos tão longe disso.

O condicionamento desse ódio é feito de várias formas, mas a mais perturbadora é a chamada “Dois Minutos de Ódio”. Imagine a “Hora do Brasil” no rádio, porém dessa vez na televisão, e onde apareça o rosto do maior inimigo da nação (no caso, o traidor do Partido Emanuel Goldstein) vociferando frases contra o Grande Irmão e também dando tiros para todos os lados. O mais completo caos acontece, os corpos totalmente tensos dos moradores, oprimidos até mesmo sexualmente, ficam em uma espécie de frenesi coletivo ao ver tal cena, e isso ocorre todos os dias, como forma de mostrar que sem o Partido, o inimigo triunfaria e levaria a Oceânia ao caos. Tanto é que após tanta demência raivosa, surge o rosto apaziguador do Grande Irmão, acalmando a todos. Como não amar o Grande Irmão, não é mesmo?

O livro é dividido em 3 partes, que vão conforme a rebeldia de Winston vai crescendo contra o Partido. Na primeira, o personagem começa a escrever em um diário (coisa extremamente perigosa de se fazer), onde começa a demonstrar sua lucidez perante a opressão do Partido (culminando na frase “Abaixo o Grande Irmão!”). Na segunda, é seu envolvimento amoroso com Julia, uma mulher com pensamentos inortodoxos, porém cuja rebeldia não é exatamente contra o Partido, pois o que não a afeta, pouco a importa. A mais terrível é a terceira, onde mostra todo o esqueleto do partido e é explicado e mostrado como toda lavagem cerebral acontece. O Partido não mata ninguém que o odeie, ele precisa converter qualquer rebelde, como  se fosse uma religião, e aí reside o por que do Partido se classificar como eterno: nunca sobra ninguém contra o Grande Irmão.

A manipulação do povo em si é realizada muito mais nos membros do Partido Externo, que são como se fossem a classe média (a classe alta é o Núcleo do Partido), que têm seus cérebros lavados todos os dias, a todo minuto, e vivem no medo absoluto de ter um pensamento-crime. A classe baixa (os chamados proletas) são a maior parte da população e não constituem o menor perigo para o partido. A revolução sempre vem de alguém estudado, normalmente da classe média, que incendeia a classe baixa, fazendo-os ver quão miseráveis e famintos são. Portanto, a cartada final do Partido é justamente essa: enquanto os proletas precisarem trabalhar feito condenados e serem educados com mínima qualidade (e sempre de acordo com a ortodoxia do Partido), não representam o menor perigo e, dominando-se o Partido Externo com o medo e a opressão, o controle absoluto e o pensamento coletivo, punindo-se o menor sorriso enviesado, não há como a derrubada do Partido acontecer.

O pensamento coletivo é outra necessidade básica do Partido. O Eu é abolido, ninguém pensa por si próprio. Pelo contrário: o Partido pensa por todos. Qualquer sinal de individualismo é detectado como uma atitude desviada do normal (e eu nem preciso dizer onde ela vai parar, né?), por isso as pessoas ficam sozinhas basicamente somente na hora de dormir. Todas as outras atividades são realizadas em conjunto, em centros comunitários.

De início, eu pensei que o livro fosse uma crítica às ditaduras totalitárias, especialmente à socialista e aos fascismos. No entanto, percebi que não. O livro não toma posições, Orwell não está ali para apontar um caminho. Apesar de os capitalistas serem, de certa forma, mostrados como os “coitados” devido a sua derrota pelo Partido, eles não são mostrados como os heróis nem nada. 1984 não está ali para dar uma dica, um conselho para o próximo passo da civilização, mas sim para dar o alerta para onde tudo pode parar devido à crescente onda de ódio que existia desde lá, onde os sentimentos positivos das pessoas podem ser vistos como fraquezas ou, pior: como atos revolucionários e contrários à ordem.

George Orwell

George Orwell

Para a complexidade da estrutura apresentada por Orwell, o livro é de leitura bastante rápida e até mesmo simples. Ele não se preocupa em usar linguagem muito pomposa, nem descrições enormes, a não ser quando essas descrições configurem em uma imagem da opressão realizada pelo Partido. Isso  me surpreendeu bastante, pois esperava uma leitura difícil. O difícil é absorvê-la, mas não lê-la. Muitos conceitos de difícil digestão, que vai te fazer ficar pensando e pensando por horas após fechar o livro (terminei de ler ontem e não conseguia dormir, pensando nas implicações que 1984 aponta).

Em nenhum momento fiquei entediado. Pelo contrário, o livro me levou embora horas de sono, onde eu falava “que se dane, vou ler mais um capítulo”, além de haverem algumas partes onde a humanidade de Winston aflora e a nostalgia dos tempos pré-revolução aparecem, especialmente nas partes onde ele descreve sua mãe, uma pessoa amável e carinhosa, praticamente de uma espécie já extinta: essas partes me deram um nó no coração equanto lia.

1984 é uma leitura obrigatória a basicamente todo mundo. Um livro profético, visionário e extremamente atual. É daqueles que a cada vez que você ler, vai ver as coisas de uma forma diferente, e pensar principalmente no cenário atual do mundo. E eu nunca fui tão personagem de um livro como fui quando incorporei Winston na terceira e derradeira parte toda. Senti todas as dores, confusões e conflitos por quais Winston Smith passou. Obrigado pela leitura, George Orwell.

Ele está sempre vigiando. E os olhos sempre te seguem. Não há esconderijo.

Ele está sempre vigiando. E os olhos sempre te seguem. Não há esconderijo. (INGSOC é o Socing em inglês)

Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

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