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[Resenha/Livro] 1984

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Título Original: Nineteen Eighty-Four

Autor: George Orwell

Ano de lançamento: 1949 (Inglaterra)

Editora no Brasil: Companhia das Letras (edição de 2013)

Número de páginas: 414 (contando apêndices e posfácios)

1984 se passa no fictício ano de 1984 (se é que é em 1984 mesmo). O livro foi lançado em 1949 pelo escritor inglês George Orwell, que também escreveu o famoso A Revolução dos Bichos. A história se passa em Londres, que agora não pertence mais à Inglaterra, mas sim a uma enorme nação chamada Oceânia, que é governada por um sistema de governo chamado de Socing.

Em toda a história, vemos Londres pelos olhos de Winston Smith, um membro do partido externo, uma espécie de funcionário público. É através dele que vemos toda a opressão de um sistema político mais totalitário do que jamais se viu.

Imagine se um dia as leis fossem abolidas. Um sonho para os anarquistas, em certas condições. Mas não nas condições de Oceânia, onde as leis realmente inexistem, e você não é proibido de nada, mas ao mesmo tempo qualquer coisa pode te incriminar. Em meio a tudo isso, o que mais pode te incriminar é simplesmente seu pensamento. Absolutamente qualquer sinal de ir contra o Partido (o que é chamado no livro de inortodoxia) pode te levar a simplesmente desaparecer, deixar de ser uma pessoa e virar uma despessoa.

O livro é claramente um estudo político do poder pelo poder, da opressão pela opressão. O Partido é um grande organismo, um pensamento coletivo que não está interessado em riqueza, nem nada. O Partido, como um todo, só se interessa pelo poder. A figura central do partido é o Grande Irmão (em inglês, o famosíssimo Big Brother, e eu acho uma heresia hoje ser um programa de reality show de tão baixa audiência), que é a imagem do pai do carinho e do castigo, ao mesmo tempo.

Ao longo de Londres, imensos cartazes com o rosto bigodudo do Grande Irmão está espalhado, sempre com os termos “O Grande 1984Irmão está vigiando você”. Essa vigia tem ao mesmo tempo uma significância de opressão e também de vigília mesmo, de cuidado. No entanto, como é possível perceber no livro, a figura é somente opressiva. Ir contra o Partido é ir contra o Grande Irmão, e vice-versa. Quem não ama o Grande Irmão deve aprender a amá-lo, acima de tudo, até mais do que os entes familiares. E acredite, o Grande Irmão está sempre vigiando: em todo canto há as chamadas teletelas, que são espécies de televisores com programação única (a de propagandear o Partido) e ao mesmo tempo possui câmera e microfones para captar qualquer sinal de inortodoxia. E não, a teletela nunca desliga; o Grande Irmão está sempre te vigiando.

Essa questão do amor, e também de todo e qualquer sentimento afetivo dos seres humanos para com outros é subjugada e aniquilada pelo Partido. Sentimentos de amor e carinho fraternal são sintomas de inortodoxia e demonstrar muito afeto pode ser encarado como crime. Crianças são estimuladas pelos próprios pais a denunciá-los caso vejam algum sinal de pensamento-crime.

Para controlar melhor a população a sequer pensar nesses crimes, até mesmo uma nova língua está sendo desenvolvida. Seu nome é Novalíngua e será universal por toda a extensão da Oceânia. Como ninguém tem contato com o mundo exterior, é impossível estudar outras línguas. Na Novalíngua, perfeita para o Partido, palavras inortodoxas serão abandonadas e extintas e, em algumas gerações, não será possível que se pense em alguma palavra que desagrade o Partido. Por isso, o trabalho dos linguistas da Oceânia não é inventar novas palavras, mas sim destruir as já existentes, aglutinar termos e etc. Pavoroso.

Veja bem, os crimes nunca chegam a acontecer em 1984. Não há atentados contra o Partido. Ninguém pode atentar contra o Partido, o Grande Irmão jamais se fere, jamais erra. Ao menor sinal de divergência social, de uma palavra que saiu da sua boca sem querer já é motivo para ser levado aos confins do Ministério do Amor (o partido é dividido em quatro Ministérios: o do Amor, responsável pela espionagem e controle da população; o da Pujança, responsável pelo controle da economia; o da Paz, responsável pela guerra; e o da Verdade, responsável pela imprensa e, acima de tudo, na falsificação de documentos e reinvenção da História).

Algo que o livro trabalha muito é nesse contexto de realidade, passado e História. A História da Oceânia está em constante mutação. Nada existe antes do Partido e se algo já existiu, era pior do que os tempos de agora. O Partido cresceu em uma época onde o capitalismo estava em alta. A revolução aconteceu, os capitalistas caíram e agora são apenas uma sombra do passado, definidos como escravistas e opressores do povo. Diz o Partido: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.”

Nisso, o conceito de realidade se desmancha no ar. Existe somente uma realidade e, consequentemente, uma verdade: a do Partido. Por exemplo, há outras duas supernações no livro: a Eurásia e a Lestásia. As três nações sempre estão em guerra ou em aliança, e esse quadro vive sendo invertido. Porém, o Partido prega que a guerra ocorre desde sempre com a atual, e sempre era aliado da outra. Por exemplo, se até ontem a guerra era contra a Lestásia e hoje passa a ser contra a Eurásia, modificam-se todos os documentos para que não haja forma de provar que algum dia a Oceânia esteve em guerra com a Lestásia, mas sim semrpe com a Eurásia.

Isso acontece a todo momento com todo tipo de documento. Quando uma pessoa simplesmente some (ou seja, vai parar no Ministério do Amor), todos os seus registros são apagados e ela passa a nunca ter existido. Falar sobre ela é uma loucura e leva o falante ao mesmo lugar da despessoa. Esse controle da Verdade é essencial para o Partido, que jamais erra. O Partido nunca pode errar, isso colocaria as pessoas em dúvida quanto à soberania do mesmo.

A teletela exibe o rosto do Grande Irmão.

A teletela exibe o rosto do Grande Irmão, na adaptação cinematográfica do livro.

Em certo ponto do livro, os pilares do Partido são inteiramente dissecados. São eles: “Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão”, “Ignorância é Força”. É nessa parte que o estudo político fica mais evidente. Fica bem claro aí que o maior objetivo de Orwell não era fazer um romance passado em uma realidade imaginada, mas sim que esse romance era só a desculpa para ele criar um mundo que ele imaginou e assim poder dissecá-lo ao seu bel prazer. Nisso entra também um dos conceitos mais importantes do livro: o duplipensamento, uma das bases mais importantes para a lavagem cerebral do partido. O duplipensamento consiste em ter duas ideias conflitantes dentro do cérebro e aceitar as duas. É algo difícil de se absorver, e quando esse assunto começa com força no livro, fica uma leitura pesada e extremamente intelectual. Com algum esforço, com o passar do livro, esse termo consegue ser compreendido e assimilado pelo leitor, além de os seus motivos serem perfeitamente coerentes com o totalitarismo que impera na Oceânia. Afinal de contas, as coisas só são como o partido quiser que sejam. Como diz o livro muitas vezes “2 e 2 são 4, mas pode muito bem ser 3 ou 5, caso o Partido queira que seja”.

O fato é que Orwell é um gênio, um visionário. Tem tanta coisa nesse livro que hoje é atual, isso se não for dizer que tudo o que ele diz é atual. O mais aparente é o controle e manipulação da mídia. Ainda não chegamos ao estágio de modificar a História ao ponto do Partido, mas sabemos que os jornais e revistas são facilmente manipuláveis para dar a notícia do agora.

Outro ponto muito importante é o caso das guerras incessantes, onde eu claramente vejo o discurso da Guerra ao Terror dos EUA como muito parecido com a das guerras intermináveis entre Oceânia, Eurásia e Lestásia. Talvez os motivos sejam distintos, mas a tensão que gera é a mesma, o patriotismo exaltado, a xenofobia, o preconceito do diferente, tudo isso é canalizado. No fim das contas, a sociedade criada por Orwell é gerenciada e movida pelo ódio, e hoje não estamos tão longe disso.

O condicionamento desse ódio é feito de várias formas, mas a mais perturbadora é a chamada “Dois Minutos de Ódio”. Imagine a “Hora do Brasil” no rádio, porém dessa vez na televisão, e onde apareça o rosto do maior inimigo da nação (no caso, o traidor do Partido Emanuel Goldstein) vociferando frases contra o Grande Irmão e também dando tiros para todos os lados. O mais completo caos acontece, os corpos totalmente tensos dos moradores, oprimidos até mesmo sexualmente, ficam em uma espécie de frenesi coletivo ao ver tal cena, e isso ocorre todos os dias, como forma de mostrar que sem o Partido, o inimigo triunfaria e levaria a Oceânia ao caos. Tanto é que após tanta demência raivosa, surge o rosto apaziguador do Grande Irmão, acalmando a todos. Como não amar o Grande Irmão, não é mesmo?

O livro é dividido em 3 partes, que vão conforme a rebeldia de Winston vai crescendo contra o Partido. Na primeira, o personagem começa a escrever em um diário (coisa extremamente perigosa de se fazer), onde começa a demonstrar sua lucidez perante a opressão do Partido (culminando na frase “Abaixo o Grande Irmão!”). Na segunda, é seu envolvimento amoroso com Julia, uma mulher com pensamentos inortodoxos, porém cuja rebeldia não é exatamente contra o Partido, pois o que não a afeta, pouco a importa. A mais terrível é a terceira, onde mostra todo o esqueleto do partido e é explicado e mostrado como toda lavagem cerebral acontece. O Partido não mata ninguém que o odeie, ele precisa converter qualquer rebelde, como  se fosse uma religião, e aí reside o por que do Partido se classificar como eterno: nunca sobra ninguém contra o Grande Irmão.

A manipulação do povo em si é realizada muito mais nos membros do Partido Externo, que são como se fossem a classe média (a classe alta é o Núcleo do Partido), que têm seus cérebros lavados todos os dias, a todo minuto, e vivem no medo absoluto de ter um pensamento-crime. A classe baixa (os chamados proletas) são a maior parte da população e não constituem o menor perigo para o partido. A revolução sempre vem de alguém estudado, normalmente da classe média, que incendeia a classe baixa, fazendo-os ver quão miseráveis e famintos são. Portanto, a cartada final do Partido é justamente essa: enquanto os proletas precisarem trabalhar feito condenados e serem educados com mínima qualidade (e sempre de acordo com a ortodoxia do Partido), não representam o menor perigo e, dominando-se o Partido Externo com o medo e a opressão, o controle absoluto e o pensamento coletivo, punindo-se o menor sorriso enviesado, não há como a derrubada do Partido acontecer.

O pensamento coletivo é outra necessidade básica do Partido. O Eu é abolido, ninguém pensa por si próprio. Pelo contrário: o Partido pensa por todos. Qualquer sinal de individualismo é detectado como uma atitude desviada do normal (e eu nem preciso dizer onde ela vai parar, né?), por isso as pessoas ficam sozinhas basicamente somente na hora de dormir. Todas as outras atividades são realizadas em conjunto, em centros comunitários.

De início, eu pensei que o livro fosse uma crítica às ditaduras totalitárias, especialmente à socialista e aos fascismos. No entanto, percebi que não. O livro não toma posições, Orwell não está ali para apontar um caminho. Apesar de os capitalistas serem, de certa forma, mostrados como os “coitados” devido a sua derrota pelo Partido, eles não são mostrados como os heróis nem nada. 1984 não está ali para dar uma dica, um conselho para o próximo passo da civilização, mas sim para dar o alerta para onde tudo pode parar devido à crescente onda de ódio que existia desde lá, onde os sentimentos positivos das pessoas podem ser vistos como fraquezas ou, pior: como atos revolucionários e contrários à ordem.

George Orwell

George Orwell

Para a complexidade da estrutura apresentada por Orwell, o livro é de leitura bastante rápida e até mesmo simples. Ele não se preocupa em usar linguagem muito pomposa, nem descrições enormes, a não ser quando essas descrições configurem em uma imagem da opressão realizada pelo Partido. Isso  me surpreendeu bastante, pois esperava uma leitura difícil. O difícil é absorvê-la, mas não lê-la. Muitos conceitos de difícil digestão, que vai te fazer ficar pensando e pensando por horas após fechar o livro (terminei de ler ontem e não conseguia dormir, pensando nas implicações que 1984 aponta).

Em nenhum momento fiquei entediado. Pelo contrário, o livro me levou embora horas de sono, onde eu falava “que se dane, vou ler mais um capítulo”, além de haverem algumas partes onde a humanidade de Winston aflora e a nostalgia dos tempos pré-revolução aparecem, especialmente nas partes onde ele descreve sua mãe, uma pessoa amável e carinhosa, praticamente de uma espécie já extinta: essas partes me deram um nó no coração equanto lia.

1984 é uma leitura obrigatória a basicamente todo mundo. Um livro profético, visionário e extremamente atual. É daqueles que a cada vez que você ler, vai ver as coisas de uma forma diferente, e pensar principalmente no cenário atual do mundo. E eu nunca fui tão personagem de um livro como fui quando incorporei Winston na terceira e derradeira parte toda. Senti todas as dores, confusões e conflitos por quais Winston Smith passou. Obrigado pela leitura, George Orwell.

Ele está sempre vigiando. E os olhos sempre te seguem. Não há esconderijo.

Ele está sempre vigiando. E os olhos sempre te seguem. Não há esconderijo. (INGSOC é o Socing em inglês)

Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

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[Resenha/Livro] Harry Potter and the Philosopher’s Stone

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Título no Brasil: Harry Potter e a Pedra Filosofal

Autora: J. K. Rowling

Ano de lançamento: 1997 (Reino Unido)/2000 (Brasil)

Edição lida: Inglesa (Adult Hardcover)

Editora: Bloomsbury

Número de páginas: 223

Ah, Harry Potter! Isso fez parte da minha infância. Acredito ter sido um dos primeiros a ler o livro aqui no Brasil, logo nos anos 2000. Um amigo me emprestou o primeiro livro, quando ele o nome Harry Potter ainda era escrito sem luxo algum, sem raio saindo do P nem nada do tipo. Bons tempos, onde eu, no auge dos meus dez anos, começava a tomar gosto por ler livros.

Olha aí a capa do primeiro Harry Potter que li!

Olha aí a capa do primeiro Harry Potter que li!

Antes já havia lido O Pequeno Príncipe, O Menino no Espelho, O Menino do Dedo Verde e mais alguns aí… mas foi Harry Potter que me fez amar ler, certamente. Já reli o primeiro livro da série inúmeras vezes, mas agora decidi que vou reler a série toda em inglês, no original.

Agora não, porque ano passado terminei Harry Potter and the Philosopher’s Stone e estou perto de terminar Harry Potter and the Chamber of Secrets. É claro que eu sabia de tudo o que acontecia, mas é legal reler no original. Justamente porque aí pude perceber as diferenças de adaptações.

Bom, para quem não sabe (o que acho difícil existir), o primeiro livro conta o início da saga de Harry Potter, o garotinho que sobreviveu de um feitiço mortal praticado pelo bruxo mais malvado e temido de todos os tempos. Após a terrível fatalidade, que levou os pais de Harry para o além, o garoto foi criado por duros e terríveis anos por seus tios horrorosos e teve de conviver com seu primo mais intragável ainda.

Sua sorte reside em uma carta que chega quando seu aniversário de onze anos se aproxima, informando-o que ele é na verdade um bruxo e que teria uma vaga especial em Hogwarts, uma escola para pessoas dotadas de poderes mágicos. E então o livro vai narrar sobre as aventuras de Harry nesse mundo fantástico que é Hogwarts, onde a maior parte da história se passa.

A premissa parece bem simples, e é. Não se engane, Harry Potter and the Philosopher’s Stone é um livro infantil. Classificam-no como infanto-juvenil, mas a realidade é que é muito mais infantil do que juvenil. Contudo, a riqueza do universo criado por Rowling é impressionante.

O livro (na época e agora) me leva a lugares longínquos e inimagináveis. A imaginação rola solta durante toda a leitura, com animais fantásticos, feitiços e um pouco de história daquele mundo mágico. É um universo bastante inspirado, e os personagens melhoram isso ainda mais.

Essa é a primeira capa do livro no Reino Unido. Horrorosa.

Essa é a primeira capa do livro no Reino Unido. Horrorosa.

Ao invés de Rowling fazer Harry Potter como um modelo a ser seguido, um aluno exemplar e tudo mais, ela resolve fazer o contrário e o coloca como uma figura de se tomar pouca nota a não ser por ele ser famoso por ter derrotado (sem saber) o mais terrível bruxo de todos os tempos, Voldemort (pssst – Você-Sabe-Quem). Um garoto desleixado, que não sabe nada sobre magia e nem procura estudar sobre, e que deixa as tarefas para as últimas horas, Harry é o garoto comum em idade escolar.

Isso é interessante, pois, apesar de Harry ser o herói da história, ele nada seria sem seus dois melhores amigos: Ron Weasley e Hermione Granger. O trio é essencial para a aventura, sendo Hermione a mais inteligente de todos. Nascida trouxa (ou seja, de pais não-mágicos), Hermione possui magia correndo no sangue e foi para Hogwarts com basicamente todos os livros já decorados. Estudiosa e esforçada, é sempre ela quem tem a iniciativa de pesquisar sobre algum mistério, especialmente o que fica ao entorno do livro: o da Pedra Filosofal.

Ron representa a lealdade e a amizade. Pronto para o que der e vier ao lado de Harry, também se mostra muito mais do que é na escola – visto que é tão desleixado quanto o protagonista. Sem ele, Harry facilmente falharia em todos os seus propósitos durante o livro.

Por fim, Harry vem por representar a coragem e a superação. Um garoto órfão que teve uma infância difícil com os tios e agora é uma celebridade em Hogwarts, Harry possui uma curiosidade enorme e um bom senso de justiça. Isso o vai levar a várias encrencas e problemas, e isso vai trazer à tona sua determinação e coragem por impedir que algum mal ocorra.

O resto dos personagens são extremamente carismáticos e interessantes. Desde os professores ao brilhante diretor de Hogwarts, Albus Dumbledore, bem como o rival de Harry, Draco Malfoy, percebemos a profundidade dada aos personagens. Não há aqui quem seja totalmente bonzinho ou totalmente mauzinho. O Yin-Yang é muito balanceado por Rowling, e é por isso que nos apaixonamos facilmente por todos os personagens da série. Obviamente temos favoritos, mas até mesmo os mais secundários têm momentos interessantes.

Uma coisa para se notar na tradução para o português é o personagem Hagrid. Quando li em português, ele falava tudo absolutamente certinho, normalmente, que nem qualquer outro personagem. Porém, em inglês a coisa é diferente: Hagrid fala errado e com gírias, diferentemente dos outros. Isso mostra seu baixo grau de instrução. Não sei por que não fizeram isso na versão nacional, pois dá mais personalidade… só posso imaginar que, por ser um livro infantil à priori, preferiu-se deixar corretamente, para evitar que as crianças saíssem escrevendo errado… é a única coisa plausível.

A primeira aventura de Harry Potter foi, por muito tempo, meu livro favorito. Já devo tê-lo lido mais de quatro vezes em português, e agora soma-se uma em inglês. A linguagem é simples, direta e funcional, e Rowling tem o dom da narrativa dinâmica e até mesmo didática, não é nem um pouco difícil ler no original esse livro. Ok que o início é bem lento, talvez até mais do que o necessário, mas é importante sabermos quem são os Durlsey (os tios de Harry) e como ele foi entrar em Hogwarts. E ainda acho que, mesmo sendo o mais infantil da série, é um dos melhores dela.

Uma cena da adaptação cinematográfica do primeiro livro. Ao fundo vê-se o castelo de Hogwarts.

Uma cena da adaptação cinematográfica do primeiro livro. Ao fundo vê-se o castelo de Hogwarts.

Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

[Resenha/Livro] A rainha do castelo de ar

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Título Original: Luftslottet som sprängdes

Autor: Stieg Larsson

Ano de lançamento: 2007 (Suécia)/2009 (Brasil)

Editora no Brasil: Companhia das Letras

Número de páginas: 685

Finalmente cheguei ao final da trilogia Millennium. Finalmente entre aspas, porque devo ter levado no máximo dois meses para finalizar os três livros, que chegam às quase 1800 páginas, somados. E eis que terminei o maior livro da série: A rainha do castelo de ar.

O livro é uma continuação direta do anterior, diferentemente de A menina que brincava com fogo para com Os homens que não amavam as mulheres. Por isso, era de se esperar um início mais rápido e sem enrolações, correto? Sim, porém é aí que as coisas se complicam.

O segundo livro da série claramente é onde há mais ação. Já o terceiro consegue ter menos ainda do que o primeiro. Entendo A rainha do castelo de ar como uma grande investigação. Lenta e enrolada. Veja bem, Larsson conseguiu fazer um livro inteiro investigativo sem muitas cenas violentas, mas a tensão prossegue mais ou menos igual, porque agora Mikael Blomkvist está correndo contra o tempo para salvar Lisbeth Salander do seu maior inimigo de todos os tempos: o próprio Estado sueco.

Como nos livros anteriores, Larsson prossegue com sua veia jornalística pulsante. Acredito que nesse livro isso se tornou muito mais latente e importante: o alvo agora não é tão-somente quem  pratica violência contra a mulher, mas sim contra um Estado permissivo e cheio de manobras ilegais e inconstitucionais para proteger seu bem próprio, travestindo isso de “para o bem da nação”.

Essas atitudes não são incomuns de serem vistas ao longo da nossa própria história, verídica e atual. Abusos de autoridade e o Estado que fecha os olhos quando alguém fraco e oprimido sofre algum dano é o foco principal de Larsson. Eu não esperava menos, pois ao final do segundo livro, estava clara que agora a batalha de Lisbeth e Mikael seria contra a própria Suécia (in)constitucional e corrupta.

Mas aí que vem o diferencial da obra: ao invés de condenar absolutamente tudo e todos, Larsson vai na contracorrente e consegue perceber que uma laranja podre não precisa, necessariamente, contaminar toda a árvore. Por isso, ele usa de figuras representativas do Estado sueco do livro para colaborar em ver também o lado de Lisbeth Salander, que sofreu pelos abusos das autoridades desde que veio ao mundo.

Blomkvist e Salander na adaptação cinematográfica sueca de A rainha do castelo de ar.

Blomkvist e Salander na adaptação cinematográfica sueca de A rainha do castelo de ar.

Com isso, Larsson consegue demonstrar que nem todo mundo que está no topo da cadeia autoritária está ali para proteger planos mirabolantes e prejudiciais ao indivíduo do Estado. Isso o caracteriza como um autor (e jornalista) bastante sensato. Penso que, caso a história fosse transcorrida de forma a condenar absolutamente todo o governo sueco, o autor estaria sendo não somente injusto, mas também deveras infantil.

Mas isso também se deve principalmente ao livro se passar no século XXI, enquanto os acontecimentos fatídicos que levariam a todo o problema em torno de Lisbeth acontecer remontam à Guerra Fria. Todos sabemos que essa época foi marcada pela espionagem e planos sigilosos. É nesse contexto do sigilo que Larsson embaseia suas críticas aos abusos estatais.

Durante todo o livro, somos brindados com palavras e termos como “sigiloso”, “segredo de estado”, “questão de segurança nacional” e outros. Com isso, Larsson consegue causar no leitor um sentimento misto (ao menos em mim): é compreensível haverem questões sigilosas de Estado, principalmente na época da Guerra Fria, mas ao mesmo tempo isso é extramente enojante, principalmente porque, por causa desse tipo de atitude, alguém está sendo prejudicado. No caso é Lisbeth Salander, a personagem principal do segundo e terceiro livros, que aprendemos a amar, mesmo com seu jeito peculiar (e não retardado) de ser.

Com isso me ponho a pensar: quantas pessoas são prejudicadas devido a essas coisas sigilosas ainda hoje? Quantas pessoas não sofrem abuso de estado? Como historiador, sei que há um tempo para essas informações serem liberadas para o povo em geral, que é cinquenta anos. Esse é o diferencial de Larsson: com sua ficção, consegue nos colocar para pensar em questões extremamente atuais e A rainha do castelo de ar funciona bastante como um livro de história também, pois muitos fatos da Suécia são liberados, ao passo que também históricos das instituições mencionadas também são detalhados (talvez com um bom tanto de fantasia, afinal, é uma ficção).

O terceiro livro da série é, por tudo isso, bastante lento, arrastado e até mesmo repetitivo. Por haver muitas provas e detalhes a serem descobertos, seja por Blomkvist, Salander ou qualquer outro membro envolvido na investigação, quando parece que o livro vai começar a engrenar de vez e vermos a luz no fim do túnel, tudo pára novamente pois a investigação fica travada por algum outro problema.

Mas não se engane: A rainha do castelo de ar está longe de ser uma leitura chata e penosa. Essa lentidão consegue nos proporcionar uma reflexão aprofundada do tema. Acredito que foi o livro em que mais pensei sobre, e com mais calma. Diferentemente da raiva para com os homens que violentam mulheres em Os homens que não amavam as mulheres, aqui encontramos um Larsson mais calmo, mas não menos denunciador: os crimes que ele denuncia são graves, em diversos âmbitos, inclusive da incapacidade da polícia de proteger o cidadão.

O foco da denúncia, no final das contas, são as instituições de Estado, onde todas podem ser coercitivas e nocivas, caso não olhem para o indivíduo e repensem seus atos. Como a arrogância costuma imperar nos doutores do alto de suas cadeiras autoritárias, normalmente esse indivíduo é pisoteado. É o caso de Salander, pisoteada desde o início de sua vida.

A importância da imprensa para esse tipo de denúncia é exaltado durante todo o livro também. Larsson era um jornalista, e A rainha no castelo de ar soa como um ode à sua profissão e fica claro que o Blomkvist jornalista é o alter ego do autor nesse ponto: se há algo para denunciar, a imprensa jamais deve se omitir. E Mikael jamais se omitiria, desde que possa provar tudo o que disse. Inclusive correndo risco de vida, a fibra e coragem do jornalista deve prevalecer, sempre buscando divulgar a verdade à população, sobre o que quer que seja.

A rainha no castelo de ar, por mais lento que seja, apresenta questões contundentes e torna a trilogia Millennium certamente obrigatória para qualquer leitor interessado em uma leitura provocativa e de caráter denunciador, além do que o livro possui o melhor final de todos da série, dá uma sensação realmente de “fim”. Um brinde a Stieg Larsson, um dos melhores autores e mais corajosos autores que já tive o prazer de ler.

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Nota final: 4 estrelas (em um total de 5)

[Resenha/Livro] A guerra dos tronos

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Título Original: A Game of Thrones

Autor: George R. R. Martin

Ano de lançamento: 1996 (EUA)/2010 (Brasil)

Editora no Brasil: LeYa

Número de páginas: 592

Relutei muito para começar a assistir a série Game of Thrones, da HBO. Não vi durante o lançamento e dizia: “pra que vou ver outra série idiota medieval que provavelmente tem os mesmos clichês de sempre de dragão atacando tudo, um feiticeiro maluco fazendo magia e etc?” Eu já estou bem saturado de medievalismo, mesmo que 100% ficcional. Quando era adolescente, esse tipo de coisa me atraía mais (bem como coisas relacionadas a RPG, que geralmente são carregados de medievalismo), mas depois passei a ter total aversão, de tanto ver coisas clichês sobre isso, salvar a princesa no castelo depois de derrotar o dragão, orcs, goblins e etc… eu esperava ver em Game of Thrones um Senhor dos Anéis 2.

Até que falei “deixe-me assistir a essa coisa e tirar minhas conclusões sem preconceito”. Ok, se eu não tivesse gostado, com certeza eu teria falado mal mais do que o necessário e justo, pois o preconceito falaria mais alto. Decidi ver nas férias de 2011, a primeira temporada já tinha acabado e baixei de vez os dez primeiros episódios. E vi em coisa de 3 dias, junto com a minha mãe (para a minha total vergonha).  E daí surgiu uma paixão.

Bem, o objetivo aqui é falar dos livros e não do seriado. Depois de ver a primeira temporada, decidi comprar o primeiro livro. Acabou que achei uma promoção excelente na Bookdepository dos quatro primeiros livros por uma mixaria, em um box muito bonito. Edições de bolso. Como livros não podem ser taxados em hipótese alguma, comprei sem pestanejar. E aí dali a alguns dias os Correios entraram em greve. E esse pacote jamais chegou. Ainda tenho esperanças de que um dia terei 84 anos de idade e baterão na porta de casa me entregando o box. Com sorte a Bookdepository me devolveu o dinheiro sem enrolação alguma.

E aí chegou uma promoção do Submarino (ou Saraiva, sei lá) dos três primeiros livros da saga em um box (mixuruca) de colecionador. Comprei e esse sim chegou, sem problema algum. E então comecei a mergulhar em Westeros, mesmo já sabendo absolutamente tudo do primeiro livro, de tão fiel que é a primeira temporada da série.

George R. R. Martin sabe escrever. Isso não se pode negar em hipótese alguma. Roteirista e autor de várias novelas e romances, o senhor americano de 64 anos criou uma história profunda, intrincada, cheia de personagens interessantes e com reviravoltas de tirar o fôlego.

A escrita de Martin é muito boa. Sem enrolação demais, sem descrições em excesso e com um pé muito firme no realismo, A Guerra dos Tronos se torna facilmente um dos melhores livros de ficção que já li na vida, e foi logo no primeiro livro que eu  percebi que eu estava preso para sempre dentro do mundo intriguento criado por Martin.

Emblemas de algumas das principais famílias de Westeros.

Emblemas de algumas das principais famílias de Westeros.

Verdade seja dita: a comparação com O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, é injusta, mas não há quem não a faça. Tolkien é o pai da ficção fantástica moderna e é o ícone máximo da criação de sagas épicas. Acho que jamais veremos um mundo tão vivo e pulsante quanto a sua Terra Média, e é fato que esse universo da saga do Um Anel é muito mais fantasioso, criativo e livre.

Westeros é bem diferente. Não temos orcs, trolls ou ents. O que temos é um mundo extremamente calcado no real no primeiro livro da série (já li os cinco, mas estou resenhando o primeiro somente agora, o que é uma tarefa árdua, pois nem tudo está tão fresco na memória), e isso me agrada muito (é só ver o que eu comentei lá em cima do clichê). Eu esperava uma coisa, e recebi outra completamente melhor, e isso é prazeroso. Ser surpreendido positivamente é ótimo, e A Guerra dos Tronos fez isso comigo.

Martin compõe seu elenco de personagens de forma rara perto de outros livros: com extrema profundidade. Não há personagem bonzinho ou mau. Em A Guerra dos Tronos, vemos que só existem interesses, e isso vai nortear as ações de praticamente todos os personagens. Por isso, não temos ninguém bobo ou ingênuo participando (a não ser as crianças, mas bem, essas são crianças, se elas fossem descritas como verdadeiros adultos, seria muito estranho), e se há algum personagem assim, pode ter certeza que ou ele vai mudar e ficar mais esperto ou vai se ferrar grandemente.

Já no primeiro livro de As crôncias de gelo e fogo, percebemos que Martin não é um escritor comum, que mantém seus personagens principais vivos só para ficar em uma zona de conforto. Pelo contrário, o autor parece brincar com os sentimentos do leitor ao colocar personagens chave em posições extremamente terríveis e até mesmo chegando ao destino de toda a vida: a morte. Por isso, pode ser extremamente desagradável ler A Guerra dos Tronos e ver um personagem muito querido vir a óbito.

O Trono de Ferro, objeto de todas as intrigas do reino. Quem senta nele, controla todo o continente.

O Trono de Ferro (como mostrado na série da HBO), objeto de todas as intrigas do reino. Quem senta nele, controla todo o continente.

E isso é bastante raro, é como se Martin se desafiasse a continuar uma história sem um personagem chave. Sinceramente, nunca vi nada igual. Já vi em diversos livros o mocinho chegar a uma situação em que a morte sopra ao seu ouvido, mas que ele consegue milagrosamente escapar das garras dela. Isso é o comum e esperado. O contrário, não.

E essa é uma grande lição que podemos tirar do livro: ninguém está a salvo, coisas horríveis podem (e vão) acontecer. Não se apegar aos personagens seria o ideal em uma situação como essa, mas isso é algo impossível. Os profundos e diferentes personagens da saga vão gerar ódio e amor ao mesmo tempo, muitas vezes fazendo ações que detestamos, mas lá na frente podem vir a se redimir e então podemos voltar a gostar deles, ou descobrir que já gostávamos desde o início.

Essa evolução de personagens é latente durante toda a série, e já no primeiro livro isso se mostra, pois mesmo sendo introdutório, temos muitos problemas a serem resolvidos já nele, e essa dualidade dos personagens já estará presente desde o início. Absolutamente todos eles são cinza, como escrevi acima. E isso leva uma saga medieval a outro nível.

Uma excelente escolha para essa aproximação com os personagens é a forma que Martin escolheu narrar a história: por pontos de vista. Ou seja, não temos capítulos em si, mas cada personagem tem partes no livro que são inteiramente vistas sob seus olhos, e narradas em terceira pessoa. É uma excelente forma de se criar esse vínculo entre todos os personagens principais e o leitor, visto que assim conseguimos ver de perto os pensamentos e sentimentos deles.

Tudo bem que nem tudo é real no livro, pois temos um núcleo onde há a ameaça iminente de seres mitológicos chamados “Outros”, com poderes além dos humanos, que querem mais é dizimar toda a humanidade. São como mortos-vivo, mas renascidos no inverno extremo para o outro lado da Muralha, uma gigantesca estrutura que separa o reino de Westeros com os povos ditos selvagens, que vivem para-lá-da-Muralha.

Mas isso nem é lá tão o foco no primeiro livro. O foco mesmo é nas intrigas e jogos políticos protagonizados pela maioria dos personagens, entre Winterfell (o reino do norte, onde a maior parte dos protagonistas do livro, os membros da família Stark, vivem) e Porto Real (a “capital” do reino, onde a maior parte das intrigas ocorrem). E é isso que é apaixonante no livro: esse foco maior em contar uma história política, e não essencialmente fantástica. Há muitos mitos, lendas e mitologia, mas isso se torna até mesmo irrelevante perto do peso enorme que a política e conflitos de interesses de Westeros têm.

A Guerra dos Tronos é um livro profundo, pesado e divertido. É aquele livro que vai te fazer querer ler o mais rápido possível A Fúria dos Reis, quando terminá-lo. É um livro para adultos também, essa fachada de ficção fantástica medieval cai por terra quando se começa a ler, com mortes, ação e também um certo grau de erotismo (muito menor do que na série, que soa até apelativa nesse ponto).

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Nota final: 5 estrelas (em um total de 5)

[Resenha/Livro] Os homens que não amavam as mulheres

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Título Original: Män som hatar kvinnor

Autor: Stieg Larsson

Ano de lançamento: 2005 (Suécia)/2008 (Brasil)

Editora no Brasil: Companhia das Letras

Número de páginas: 522

Os homens que não amavam as mulheres é o primeiro livro da trilogia Millenium, criada pelo sueco Stieg Larsson, que não viveu para ver o estrondoso sucesso de seus três livros, que ganharam versões cinematográficas suecas e (por enquanto) uma de Hollywood, dirigida por David Fincher e interpretada por Daniel Craig e Rooney Mara.

O livro gira em torno de dois personagens principais: o jornalista e recém-condenado à prisão por difamação Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, uma jovem hacker e socialmente diferente. Ambos se encontrarão cercados por um grande mistério que assola a poderosa família Vanger, uma das principais donas de indústrias da Suécia, devido ao sumiço de Harriet Vanger, três décadas atrás.

O estilo de Stieg Larsson é apaixonante e hipnotizador. Quando eu menos pude perceber, já estava dentro do livro, conseguindo sentir até mesmo o frio enorme da Suécia no inverno, especialmente da cidade de Hedestad.

A mistura infalível de mistério e denúncia é um prato cheio para quem gosta de bolar mil e uma teorias na cabeça enquanto Larsson destila seu veneno pelas páginas de Os homens que não amavam as mulheres.

Primeiramente, o mistério é absolutamente envolvente e com conclusões bastante aterrorizadoras. O sumiço de Harriet Vanger é dramático e vai levar Mikael Blomkvist ao esgotamento para tentar solucioná-lo, não sem o auxílio de Lisbeth Salander, que é o completo oposto.

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Larsson conseguiu também tornar o livro uma grande denúncia, não somente à violência sexual contra a mulher, mas também aos jornalistas suecos (e por que não do mundo todo?) e também às fraudes milionárias do mundo financeiro da Suécia. O bom é que nenhuma dessas denúncias é rasa e/ou imposta forçadamente à obra, como que se Larsson estivesse buscando uma moral somente para vender mais exemplares. Pelo contrário, a denúncia é sutil e completamente relacionada ao contexto do livro, porém aparece com tanta raiva durante o texto que é impossível deixá-la de lado e não se pegar pensando sobre isso mesmo após fechar o livro.

Os personagens principais do livro – Blomkvist e Salander – merecem imenso destaque e apresentam um Yin e Yang que se somam. Salander é completamente impulsiva e irritadiça, enquanto Blomkvist é um jornalista respeitado e que pensa bastante antes de agir. E não há melhor ou pior maneira de se pensar ou agir apresentadas no livro, mas sim ações e pensamentos que acabam por se completar.

Alguns problemas que o livro apresenta são de ordem prática e necessária: a apresentação de todo o contexto, a família de Harriet Vanger, o mundo financeiro e jornalístico sueco, tudo isso é feito de modo lento e a história demora imensamente para começar a realmente engrenar como um romance essencialmente de mistério e investigação.

Mas isso não é lá tanto um problema, pois o estilo rápido e Larsson permite uma leitura rápida, porém os detalhes têm de ser atentamente absorvidos, principalmente por haver uma gama imensa de personagens, vivos e mortos, que assombram até o presente da família Vanger na ilha de Hedeby. Parágrafos e frases curtas, bem como capítulos longos, porém com diversas divisões dentro de cada um, garantem uma leitura rápida e prazerosa, que consegue manter o leitor sempre curioso para saber o que acontecerá em seguida.

Li o livro antes de ver o filme, e fico imensamente feliz por isso. Muito melhor ler sem saber de absolutamente nada, pois o ponto crucial do livro é o mistério que envolve a família Vanger.

Não dou 5 estrelas somente por essa apresentação enorme (porém, repito, necessária), porque de resto, Larsson tem um estilo perfeito para a proposta de Os homens que não amavam as mulheres.

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Nota: 4 estrelas (em um total de 5)

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